MATUTANDO

MATUTANDO

Matutando no Silencio

Eu aprendi a ouvir o silêncio.
Aprendi porque não tinha outra opção.
Quando não tinha o que falar, nem com quem falar, era ele que ficava. O silêncio. E foi ali que a poesia começou a aparecer. Não por escolha. Por necessidade. Em dia ruim, em dia pesado, em dia que a angústia apertava — minha ou dos outros que estavam perto — era isso ou enlouquecer.

Vou falar uma coisa que muita gente não entende: o cárcere me inspirou. Inspirou mesmo. Foi dali que saiu muita coisa. Aquilo era um depósito de imagem, de lembrança, de memória. Eu escrevia com o que tinha, uma caneta qualquer, papel contado. E eu brigava comigo pra não perder o que ainda era meu: minha história. Eu não sabia, mas aqueles pedaços iam me puxar de volta quando eu já tinha passado do limite. Voltei pela memória. Foi assim. E tô aqui.

Quando tudo faltou, eu comecei a criar do nada.
Do nada mesmo.
A cabeça não parava. Era ansiedade, confusão, ideia torta, medo, vontade, tudo junto. Às vezes parecia até coisa boa, mas era mentira. Droga nunca me libertou. Nunca. Entorpece, apaga, bagunça. Alucinação não abre porta nenhuma. Só fecha mais.

Às vezes vinha a infância. Do nada. Um flash. Uma cena. Um cheiro. A memória aparecia e o tempo parava. E ali, parado, eu tinha tempo demais pra pensar. Pensar dói. A cela era fria, dura. As grades estavam ali. Não deixavam passar o corpo. A mente, ninguém segura.

Nos corredores, o que mais tinha era gente vazia. Corpo cheio, alma vazia. Amontoado de gente andando no automático. Zumbi mesmo. O sistema vai moendo devagar. Ali eu entendi: a pior prisão é quando a pessoa para de pensar. A tortura não vem com grito. Vem pingando. Um pouco de ódio todo dia. Um pouco de amargura. Quando a pessoa perde a memória da própria história, acabou. A alma vai junto. O ódio diário transforma gente em coisa. Em bicho. Em monstro treinado.

O tempo ali não anda. Se arrasta.
Dez anos, quinze, tanto faz. Um dia já é tempo demais. O espaço é pequeno, mas a cabeça vai longe. Todo mundo espremido, pequeno ladrão, criminoso grande, tudo junto. Só não aparece o crime fino. O de gravata. O que rouba hospital, escola, futuro. Esse quase nunca senta na cela.

As regras lá dentro não estão em lei nenhuma. São outras leis. Leis duras. Desumanas. Ninguém brinca com isso. Quem quebra paga. E paga caro.

Foram 3.650 dias.
Eu contei.
E lutei pra não virar parte daquilo. Fugir virou obsessão. Eu fugi. Mas aprendi uma coisa feia: não dá pra fugir de si. Estar solto não quer dizer estar livre. Nem de longe.

Pra aguentar, eu virei personagem. Um disfarce. Óculos, jeito calmo, cara de quem lê. Quem ia desconfiar? Eu lia livro velho, folha amarela. Às vezes nem era a história. Era a letra. Eu copiava as formas. Depois usava nas cartas pra minha amada. Lia e vigiava. Sempre vigiando o passo do guarda.

Foi assim que eu conheci lugares que nunca pisei. Grécia. Espanha. Mar, rua, gente. Conheci país sem sair da cela. Aprendi coisa que nunca pensei aprender. Religião também. Passei por várias. Nenhuma me segurava. Eu não gosto de gaiola. Religião demais engessa. Afasta. Endurece. Às vezes vira ódio.

Deus eu conheci depois.
Não o Deus distante. O Deus perto. O Deus que se mostra no outro. Isso me ajudou a andar no escuro sem medo. Coragem não vem de arma. Nunca veio. O que tira o medo do escuro é luz. Luz é atitude. É enxergar por quem não vê. Falar por quem não pode. Fazer o certo quando ninguém tá olhando.

A poesia me salvou de mim mesmo.
Saiu muita raiva. Muita frustração. Mas saiu verdade também. Verdade dói, mas limpa.

A poesia me deu voz. Me deu chão.
Me deixou ser quem eu sou, sem pedir licença.
Livre no que penso. Livre no que acredito.
Agora, se tem uma coisa que eu sei, é que ainda tenho muito que aprender sobre gente.

Ouvir é difícil.
Difícil mesmo.
Às vezes não é ouvir palavra. É ouvir silêncio. O silêncio de quem foi calado a vida inteira. E pra isso, tem que ficar quieto. Sentir. Ouvir com o coração.

 

Matutando no Silencio

Eu me acostumei a ouvir o silêncio.
Foi assim, meio sem perceber.
Quando não tinha o que dizer, nem com quem falar, era ele que ficava. E, curioso, foi justamente nessas horas que a inspiração aparecia. Em momentos difíceis, de angústia mesmo — minha ou de gente próxima — a poesia vinha. Não vinha bonita, vinha necessária.

Pode parecer estranho, mas o cárcere foi um grande inspirador pra mim. Foi um celeiro de imagens. Um canteiro poético. Ali, minhas lembranças e minha memória começaram a brotar, riscadas pelo bico de uma caneta. Eu lutei muito pra não perder o que eu tinha de mais valioso: os pedaços da minha história. Na época, eu nem sabia, mas eram esses fragmentos que iam me ajudar a voltar de um caminho sem volta. Voltei pela memória. Voltei por dentro. E estou aqui.

Quando tudo faltava, eu virei criador do nada.
Ou melhor, da abundância do nada.
Era delírio, piração, um colorido sem forma, aquela zonzeira constante. Ansiedade lá em cima, o cérebro dando espasmo, imagens, desejos, medos e uma falsa sensação de bem-estar atravessando a mente na velocidade do pensamento. As drogas nunca me deram liberdade. Nunca. Entorpeciam, sim. Inspirar, não. Alucinação não liberta ninguém. Só aperta mais a grade.

De repente, como um mosaico quebrado, vinham flashes da minha infância. A memória aparecia. O tempo parava. E ali, com tempo de sobra, eu remontava minha história. Sem maquiagem. Do jeito que era. A cela era fria, dura. As grades não deixavam passar o corpo, mas a mente… a mente viajava.

Nos corredores dos pavilhões, o que eu via eram celas cheias de almas vazias. Gente amontoada, zumbizada. Vidas sendo, pouco a pouco, robotizadas pelo sistema. Ali eu entendi uma coisa: a maior prisão é a alienação. A tortura não vem de uma vez. Ela pinga. É um conta-gotas de amargura que vai deformando a memória. E quando a pessoa perde a história, a alma morre. O ódio diário mutila sentimentos, destrói a vida e transforma gente em monstro. Monstros fabricados, treinados pra maldade.

O tempo ali é lento. Muito lento.
Dez anos, quinze… tanto faz. Qualquer dia já é tempo demais dentro de uma prisão. O espaço é pequeno, mas o tempo parece infinito. Espremidos como sardinhas, convivem tubarões do crime e gente de pequenos delitos. O colarinho branco não aparece. O crime elegante, aquele que rouba saúde, educação, direitos, esse quase nunca conhece cela.

As regras internas não estão em Constituição nenhuma. São leis do submundo. Leis desumanas. Ninguém ousa quebrar. E quando quebram, a execução vem no pior sentido da palavra, feita por quem também vive fora da lei.

Nesse cenário eu vivi 3.650 dias. Uma eternidade.
E eu lutei pra não me acostumar.
Fugir virou ideia fixa. E eu fugi. Mas aprendi do jeito mais duro que não dá pra fugir de si mesmo. Estar solto não é a mesma coisa que estar livre.

O desejo de liberdade me fez criar personagens. Com certa elegância, eu burlava a vigilância. Quem ia desconfiar? Óculos de descanso, jeito de intelectual. Eu caminhava pelas páginas amareladas de livros velhos. Às vezes nem era a história que me prendia, era a forma das letras. Depois eu recriava aquelas letras nas cartas que escrevia pra minha amada. Lia, mas sempre de olho nos passos dos guardas sobre a muralha.

Foi assim que conheci Amorgos, no mar Egeu. A Andaluzia, banhada pelo Atlântico e pelo Mediterrâneo. Andei por lugares que nunca pisei com os pés. Conheci países, culturas. Tive aulas de etiqueta, pintura, autoajuda. Conheci religiões, espiritismo, outras crenças. Deus, naquele tempo, eu ainda não conhecia. Tudo parecia meio sem sentido. Não me sentia parte de grupo nenhum. Nunca fui religioso. Gosto da liberdade. Muitas religiões engessam, afastam, endurecem. Quando não, viram intolerância, fanatismo.

Foi a leitura que me levou até Deus.
Não um Deus distante, mas o Deus Pai, que escolheu ser amado no próximo. Conhecer Ele me ajudou a atravessar lugares escuros — becos, vielas, celas, pavilhões — sem medo da escuridão. Minha coragem nunca veio de arma nenhuma. Deus me ensinou que o que vence o escuro é a luz. E ser luz é enxergar por quem não vê, falar por quem não tem voz. Luz é prática de justiça.

A poesia foi sangria e cura. Pela ponta da caneta, saiu muita raiva, muita decepção. Mas saiu também a verdade bonita dos meus sentimentos.

A poesia tem um lugar especial na minha vida. O poeta fala do que é dele, da sua verdade e da verdade da sua comunidade. A poesia me deu autonomia pra ser quem eu sou. Livre nas minhas convicções. E se tem uma coisa que eu sei com certeza é que ainda tenho muito a aprender no trato com as pessoas.

Ouvir é uma arte difícil.
Escutar de verdade dá trabalho.
Às vezes é preciso ouvir o silêncio de quem foi silenciado. Ouvir calado. Sentir em silêncio. Ouvir com o coração.